Quando descobri que estava grávida, comecei a estudar muito sobre o mundo mágico da maternidade. Queria entender melhor o que aconteceria com o meu corpo, como eu poderia gerar essa vida de maneira saudável, queria saber tudo em relação ao parto. Comecei a consumir o máximo de informações possíveis lendo artigos, assistindo a documentários, conversando com outras mães. E aí eu descobri que esse mundo da maternidade não é tão mágico assim.

Li uma frase da Gloria Steinem que resume bem o meu sentimento: “A verdade te liberta, mas primeiro ela vai te enfurecer”.

Eu não sabia que as mulheres poderiam ser enganadas e desrespeitadas durante o parto. Eu não sabia que enquanto essa mulher está no seu momento mais frágil, tendo seu filho, alguém vai lá e faz um corte entre a vagina e o ânus sem o seu consentimento — e que esse procedimento é 99,9% desnecessário. Eu não sabia que muitas mulheres na rede pública não tem seu direito de ter um acompanhante durante o parto assegurado. Eu não sabia que o mercado de trabalho é cruel com as mães e elas podem nunca mais conseguir um emprego. Eu não sabia que a maioria das cesarianas são indicadas pelos médicos por simples conveniência e que existem vários mitos relacionados ao parto que nos fazem acreditar ser um risco para o bebê para justificar a cirurgia.

Um dos dados mais assustadores divulgados a partir dos resultados da pesquisa “Nascer no Brasil: Inquérito nacional sobre parto e nascimento” mostra que o Brasil é o país em que mais se faz cesáreas no mundo. 52% dos bebês nascem através de cesáreas. No setor privado esse número pode chegar a mais de 90%Quase cinco vezes maior que o recomendado pela Organização Mundial de Saúde. Segundo a pesquisa, 65% das cesarianas são desnecessárias, não havendo justificativas clínicas para um percentual tão elevado dessas cirurgias.

Esse estudo foi coordenado pela Fundação Oswaldo Cruz em parceria com o Ministério da Saúde e contou com participação de pesquisadores e instituições de pesquisa de todo país. Foram entrevistadas 23.894 mulheres em 266 maternidades, localizados em 191 municípios de todos os estados do Brasil. Foi a primeira e maior pesquisa a oferecer um panorama nacional sobre a situação da atenção ao parto e ao nascimento nos hospitais.

Olhando para dados tão relevantes e expressivos, resolvi compilar o resultado dessa pesquisa e criar uma representação do perfil dessas mulheres através de Personas.

Criando as personas

Personas são arquétipos, personagens fictícios, criados para representar uma maioria e delinear padrões comportamentais, características, metas e objetivos.

Elas são desenvolvidas a partir de pesquisas com os usuários (através de questionário, entrevistas, análise de dados, etc.). Quanto mais informações você tiver, mais completa e significativa será a sua Persona.

Para criar uma persona, é preciso percorrer o conjunto de dados que você coletou na fase de pesquisa e reduzi-la a um punhado de dados demográficos e padrões de comportamento. A partir do agrupamento desses padrões, criamos as personas.

Um passo a passo resumido seria basicamente:

  • Você faz uma pesquisa com os usuários — entenda seu público.
  • Organiza os dados da sua pesquisa e identifica os padrões.
  • Transforma esses padrões em um personagem que represente suas descobertas.
  • “Dê uma cara” aos personagens, com foto, nome, biografia, dados demográficos, características, etc. Isso ajuda a torná-los mais reais.

Meu objetivo era reunir os dados dessa pesquisa já feita pela Fundação Oswaldo Cruz e apresentar essas informações em um recorte pontual e de fácil compreensão através das personas. Quem são essas mulheres? Quais suas motivações, dores, necessidades? O que elas pensam? O que elas sentem? O que elas escutam? E, basicamente responder a essas perguntas de forma visual, onde essas informações pudessem ser mais facilmente consumidas utilizando metodologias do design.

Compilação dos dados da pesquisa Nascer no Brasil

 

A partir do levantamento das informações da pesquisa Nascer no Brasil, comecei a identificar os padrões, reunir esses dados nos personagens fictícios que passaram a ter um nome, um rosto e sentimentos. Surgiram então a Cristiane de 20 anos, autônoma, e a Julia, 35 anos, advogada.

As personas

Os dados da pesquisa Nascer no Brasil revelaram uma grande desigualdade na assistência recebida. As mulheres pretas e pardas foram as que relataram menor satisfação com o serviço prestado – que levou em consideração o tempo de espera, privacidade, respeito, clareza nas explicações, possibilidade de fazer perguntas e participação nas decisões. Em sua maioria, essas mulheres são de classes populares, de baixa escolaridade, residentes nas regiões Norte e Nordeste, que tiveram parto vaginal, atendidas no setor público através do SUS. As mulheres pretas são as que menos têm acesso ao serviço privado de saúde — somente 5%, o que indica uma forte elitização da assistência.

Essas mulheres, representadas pelo arquétipo da Cristiane, não tiveram a presença contínua de um acompanhante, foram submetidas a intervenções excessivas e dolorosas, ouviram gritos e xingamentos, não receberam nenhum tipo de alívio para dor, ficaram restritas ao leito e sem possibilidade de caminhar e de se alimentar, foram submetidas a episiotomia (corte entre a vagina e o ânus), deram a luz deitada de costas com alguém apertando a sua barriga (manobra de Kristeller), não foram informadas dos procedimentos que estavam sendo feitos em seu corpo e foram amarradas ao leito, tirando sua autonomia.

De acordo com o artigo A cor da dor: iniquidades raciais na atenção pré-natal e ao parto no Brasil, baseado na pesquisa Nascer no Brasil, as puérperas pretas possuíram maior risco de terem um pré-natal inadequado, falta de vinculação à maternidade, ausência de acompanhante e peregrinação para o parto. Elas também receberam menos orientação durante o pré-natal sobre o início do trabalho de parto e sobre possíveis complicações na gravidez. Segundo a pesquisa, as pretas receberam menos anestesia local quando a episiotomia foi realizada, em comparação às brancas.

Elitização da assistência

O arquétipo da Julia, mulheres com maior renda e escolaridade, brancas, usuárias do setor privado, possuem o privilégio de ter a presença contínua do seu acompanhante durante todo o período de internação e relataram maior satisfação com a atenção e serviço prestado. Elas estão na sua primeira gestação e, em sua maioria, realizaram todo o pré-natal e agendaram o parto para o nascimento do bebê com menos de 39 semanas.

O estudo revela que quanto mais anos de estudo, menor a chance de um parto normal. Além disso, quanto maior o poder aquisitivo, maior o número de práticas não recomendadas como: aspiração de vias aéreas superiores no bebê, aspiração gástrica, uso de incubadora e separação mãe-bebê.

Em comum, elas têm o desejo do parto normal no início da gravidez.

Estima-se que quase um milhão de brasileiras são submetidas à cesariana sem obstetrícia adequada, sendo expostas a maiores riscos de morbidade, mortalidade e recursos gastos com saúde. Esse número contrasta com o desejo das brasileiras de ter um parto normal no início da gestação — 70% das gestantes. Entretanto, poucas foram apoiadas na sua decisão e ao longo da gestação e optaram pela cesárea. O que leva os pesquisadores a acreditarem que a orientação no pré-natal pode estar induzindo a maior aceitação da cesariana. A maioria das mulheres relataram o medo da dor como razão para escolher a cesariana. Não é para menos. Uma em cada quatro mulheres no Brasil sofre violência obstétrica todos os dias.

“O índice elevado de cesarianas se deve a uma cultura arraigada no Brasil de que o procedimento é a melhor maneira de se ter um filho. Em parte porque, no Brasil, o parto normal é realizado com muitas intervenções e dor”, esclarece a coordenadora da pesquisa, Maria do Carmo Leal.

Mapa da empatia

Mapa da empatia é uma ferramenta que ajuda a imaginar o “personagem”. Através dela, conseguimos sintetizar suas observações a partir da fase de pesquisa e extrair informações sobre sentimentos, pensamentos, dores, desejos e necessidades dos usuários. Por isso, como o nome diz, o mapa da empatia é uma ferramenta que nos ajuda a construir empatia em relação a eles e oferece uma visão valiosa sobre as suas necessidades.

Mapa da Empatia da Cristiane

O que a Cristiane pensa e sente:

  • Deseja parto normal no início da gravidez
  • Sente medo da dor do parto e do sofrimento
  • Deseja que tenha vaga no hospital na hora do parto e um médico disponível

O que a Cristiane vê:

  • Se vê nas mãos do médico que aparecer no plantão no momento do parto — se aparecer.
  • Vê mulheres sofrendo violência obstétrica.
  • Hospital sem vaga para atender todas as mulheres.
  • Mulheres sozinhas em grande parte do período de internação.

O que a Cristiane escuta:

  • “Na hora de fazer você gostou, né?”
  • “Não chora não, porque ano que vem você vai estar aqui de novo.”
  • “Se continuar com essa frescura eu não vou te atender”
  • Relato de partos traumáticos e dolorosos.
  • “Nenhum profissional da saúde falava o que estava acontecendo ou o que iria ser feito.”

O que a Cristiane fala e faz?

  • “Fizeram um corte em mim sem me perguntar antes e sem anestesia.’
  • “Senti muita dor.”

Mapa da Empatia da Júlia

O que a Júlia pensa e sente:

  • Deseja parto normal no início da gravidez
  • Sente medo da dor do parto e do sofrimento
  • Medo de lesão genital e disfunção sexual
  • Ela acredita que a cesariana é mais saudável para o bebê e mais seguro para os dois

O que a Júlia vê:

  • Ela vê praticidade e segurança na cesariana.
  • Aprova a qualidade do pré-natal.
  • Benefícios em planejar a data certa para o parto.
  • Tranquilidade em um parto sem dor.

O que a Júlia ouve:

  • “A cesárea é mais segura para você e para o bebê”
  • “O bebê é muito grande, não vai passar.”
  • “O cordão está enrolado no pescoço. Tem que fazer cesariana.”
  • “Cesariana é menos traumática”
  • “O seu peso não permite fazer um parto normal”
  • Amigas e familiares falam que é prático, rápido e seguro.
  • “É muito melhor, pois você não sente dor”

O que a Júlia fala e faz:

  • Desiste do parto normal depois das orientações do médico.
  • Agenda o parto cesariana para o nascimento em 38 semanas.
  • “A cesárea foi combinada no pré-natal. Não cheguei a entrar em trabalho de parto. Foi marcada cesárea para de manhã, mas como o médico teve um congresso não pode ser feito nesse horário, foi marcado para noite.”

O medo como senso comum

Percebemos que o medo é um sentimento presente nas duas personagens — medo da dor, da violência obstétrica, de lesão fetal e genital. Esse lado invisível do parto virou uma prática institucionalizada e equivale a uma violação dos direitos humanos fundamentais.

Devemos, portanto, discutir o assunto e ampliar o diálogo para aumentar a conscientização e estimular a denúncia dos casos de violência — vale ressaltar que qualquer ato ou intervenção realizada sem informação e sem o seu consentimento é violência obstétrica e esses casos precisam ser denunciados. Só através da denúncia podemos combater a violência.

É preciso enfatizar que toda mulher tem direito a um atendimento digno, respeitoso e de qualidade durante o período de gestação ou parto. Por isso, é importante discutir o assunto para aumentar a conscientização das mulheres à respeito dos seus direitos e disseminar conhecimento, promovendo reflexões e mudanças de comportamento e de cultura.

Conheça seus direitos e faça a melhor escolha para você e seu bebê.

Veja aqui 7 passos para denunciar a violência obstétrica.

Esse artigo que você leu foi fruto da pesquisa “Nascer no Brasil: Inquérito nacional sobre parto e nascimento” e a criação das personas e do mapa da empatia foram baseados nessa pesquisa mas com o meu ponto de vista, de forma que isso pode não corresponder a uma verdade absoluta, é apenas um recorte baseado nos dados encontrados, sob a minha perspectiva.

Referências:

A cor da dor: As iniquidades raciais a atenção pré-natal e ao parto no Brasil
Link do artigo científico

Nascer no Brasil
Link do inquérito nacional sobre parto e nascimento

Infográficos do Nascer no Brasil
Link dos infográticos